O que se sabe sobre o vídeo da Momo, que causou pânico no Brasil

Nas últimas semanas, pais e mães se angustiaram diante do boato de que vídeos infantis foram 'invadidos' pela personagem Momo, que ensina as crianças a buscarem objetos cortantes em casa e a praticar atos suicidas

Por BBC Brasil 31/03/2019 - 19:29 hs
Foto: BBC NEWS BRASIL/ UIDI/Twitter
O que se sabe sobre o vídeo da Momo, que causou pânico no Brasil
Esta é a cara da 'Momo'

Pais e mães angustiados debateram intensamente, no fim de semana passado, vídeos infantis que teriam sido "invadidos" pela temida personagem Momo, que supostamente ensina as crianças a buscar objetos cortantes em casa e a praticar atos suicidas.

Grupos de pais e de escolas no WhatsApp foram inundados por vídeos de conteúdo infantil (como os que ensinam a fazer slime e da canção Baby Shark) em versões editadas, com interrupções de alguns segundos, em que a personagem Momo, com dublagens em inglês e em espanhol e imagens gráficas, estimula as crianças a cortarem os próprios pulsos.

Especialistas recomendam que os pais não mostrem o vídeo a crianças, embora possam aproveitar a oportunidade para discutir o tema - principalmente se eles já o tiverem assistido.

"Não é o caso de se ignorar, mas tampouco de ter uma abordagem alarmista", sugere Nejm.

"Jamais deve-se mostrar esse tipo de vídeo às crianças. Mas pode-se falar francamente que a internet tem coisas horríveis. Os pais podem contar que a Momo não é um fantasma ou monstro, e sim uma escultura, algo concreto, e que todo perfil na internet tem por trás uma pessoa real, que pode tentar assustar as crianças ou ter alguma má intenção. É por isso que elas jamais devem conversar com quem não conheçam, em jogos online ou redes sociais, nem dar número de telefone ou fazer check-in em redes abertas."

Como se proteger?

Vasconcellos, da DimiCuida, sugere que pais usem aplicativos de monitoramento do acesso online de crianças ou usem o YouTube em versões como a Go, que permite baixar offline apenas vídeos que tenham sido pré-aprovados para as crianças menores. E também restringirem, nas configurações, o acesso de crianças a determinados canais, impedindo que elas recebam notificações de vídeos que talvez não sejam apropriados.

"É preciso, também, limitar o tempo de tela", sugere ela. "A criança precisa de equilíbrio por se tratar de uma atividade passiva, que ela pode não conseguir processar se for em grandes quantidades ou não apropriada a sua faixa etária."

Acima de tudo, especialistas sugerem que pais interrompam a circulação dos vídeos, ou seja, parem de compartilhá-los.

Vídeos com a Momo foram compartilhados por pais no aplicativo Whatsapp - plataforma não comentou o caso

Vídeos com a Momo foram compartilhados por pais no aplicativo Whatsapp - plataforma não comentou o caso

BBC NEWS BRASIL/ Getty Images

"As pessoas precisam entender que quem faz isso (o vídeo) quer notoriedade e que, portanto, não devem alimentar isso", afirma o promotor Moacir Nascimento, do MP-BA.

Para Nejm, da Safernet, "é bom lembrar que a internet é a maior praça pública do planeta, e há riscos para crianças que circulem sozinhas nessa praça sem a maturidade para isso. Pais devem avaliar se elas devem ter os próprios aparelhos (celular ou tablet) sem mediação e instalar apenas programas voltados a sua idade, incluindo aplicativos de jogos e filmes. As próprias plataformas restringem o uso do WhatsApp para crianças até 13 anos e a criação de canais no YouTube para a partir de 18 anos - antes disso, só com a supervisão direta dos pais."

Segundo ele, nem sempre será possível identificar uma idade padrão para cada tipo de conteúdo, mas é necessária uma avaliação permanente dos pais sobre a capacidade de discernimento das crianças - além de navegar juntos e buscar sempre uma relação franca entre pais e filhos, para definir limites de tempo de uso de telas e de que tipo de conteúdo pode ser acessado.

"É bom sempre deixar a criança confortável para procurar os pais e professores quando se deparar com algo que a deixe preocupada ou quando alguém pedir alguma informação (online) a ela", afirma Nejm.

"Isso significa lembrar as crianças de que estão sujeitas a armadilhas e que devem mostrar o mínimo possível de si mesmas online e ter controle sobre as próprias publicações. Melhor do que criar pânico ou tirar a criança da internet, é empoderá-la para navegar e para ter discernimento, e confortá-la sempre que necessário", sugere.

O que as plataformas podem fazer a respeito?

O promotor Moacir Nascimento, do Núcleo de Combate a Crimes Cibernéticos do MP-BA, afirma que WhatsApp e YouTube foram notificados sobre o tema, com um pedido para que removam vídeos relacionados à Momo e impeçam que eles possam ser compartilhados.

"Sabemos que os vídeos postados no YouTube Kids são filtrados automaticamente, ou seja, não há filtros humanos. Nossa preocupação é impedir que (novas versões desse) vídeo sejam carregadas na plataforma", diz à reportagem.

Em nota, o YouTube afirmou que "o uso da plataforma por menores de 13 anos deve sempre ser feito pelo YouTube Kids e com supervisão dos pais ou responsáveis. É possível que a figura chamada de 'Momo' apareça em vídeos no YouTube, mas somente naqueles que ofereçam um contexto sobre o ocorrido e estejam de acordo com nossas políticas."

Consultado pela BBC News Brasil, o WhatsApp não quis se posicionar.

Há crime em fazer circular ou publicar vídeos da Momo?

Segundo o promotor Nascimento, pessoas que publiquem ou compartilhem vídeos como os da Momo "dentro de um contexto de estímulo ao suicídio, em vez de um contexto de alerta", podem incorrer em crime de instigação ao suicídio, cujas penas podem chegar a 12 anos de prisão.

Esse tipo de vídeo também viola dispositivos do ECA, o Estatuto da Criança e do Adolescente.

"A simples tentativa de carregar um vídeo desse (em uma rede social) já seria um crime", diz ele.