Automedicação diária com Aspirina para evitar infarto facilita hemorragias

Estudo britânico revela que benefícios de tomar Aspirina preventivamente não compensam os riscos – o remédio diminui a coagulação do sangue. A prática só é indicada, com prescrição médica, para pessoas que já sofreram paradas cardíacas.

Por Super Interessante 24/01/2019 - 00:06 hs
Foto: Stefan Holm / EyeEm/Getty Images

A Aspirina é pau pra toda obra. É indicada para uma porção de coisas, de febre e dor à prevenção de problemas cardíacos. Agora, cientistas do King’s College de Londres relataram que tomar esse medicamento todos os dias pode fazer mais mal do que bem. Para entender isso melhor, vamos começar… bem, do começo.

O princípio ativo da Aspirina, encontrado em plantas como o salgueiro, é usado como medicamento desde o Egito Antigo. Mas foi só em 1894 que o químico Felix Hoffman, contratado pela Bayer, conseguiu sintetizar o ácido acetilsalicílico, patenteado com o nome de Aspirina.

Ela é um medicamento muito comum (e versátil) pois possui efeitos antitérmico e anti-inflamatório. Ou seja, resolve os problemas mais triviais de todo mundo: febre ou dor. Em 1970, descobriu-se um bônus: que ela inibe a agregação de plaquetas. Plaquetas? Oi?

Relembrando as aulas de ciência do colégio: plaquetas são fragmentos de células presentes no sangue e responsáveis pelo processo de coagulação. Quando você se corta, você só não sangra até morrer porque as plaquetas vão correndo para o lugar do corte e, juntas, formam um tampão que veda a abertura do vaso sanguíneo, impedindo que o líquido continue a vazar.

O ácido acetilsalicílico, presente na aspirina, possui a propriedade de fazer com que as plaquetas não exerçam sua função.

Você pode estar se perguntando: “qual a vantagem de impedir a ação de algo que salva minha vida?” Bem, nem sempre salva. Muitos ataques cardíacos ocorrem por conta da obstrução de vasos que irrigam o coração – o que pode também acontecer com outros órgãos vitais, como o cérebro, provocando o derrame. E essa obstrução, muitas vezes, é originada por coagulação nas veias.

Se a pessoa possui problemas como aterosclerose (acúmulo de gordura ou colesterol nas artérias), por exemplo, e já tem vasos mais estreitos, qualquer coagulação pequenininha é um problemão. Foi daí que veio a ideia de usar Aspirina contra ataques cardíacos: impedir a ação das plaquetas é sinônimo de impedir possíveis paradas do coração.

Este novo estudo feito na Inglaterra colocou em números os efeitos colaterais dessa ação: tomar Aspirina regularmente pode aumentar o risco de hemorragias internas em quase 50%.

A pesquisa analisou só os resultados de ensaios clínicos envolvendo mais de mil participantes sem doenças cardiovasculares e que incluíram um acompanhamento após doze meses. Ou seja: estudos completinhos. Dentre os voluntários, estavam pessoas que tomaram aspirina diariamente e outras que tomaram placebo ou não receberam tratamento algum.

E os resultados foram claros: o uso de aspirina foi associado a 43% dos eventos hemorrágicos que os pacientes tiveram no período do estudo, comparando com aqueles que tomaram placebo. Outra pesquisa, que comprovou que a aspirina está relacionada a um risco 11% menor de ataques cardíacos, também revelou que 250 pacientes precisaram ser tratados com o medicamento durante 5 anos para prevenir um único ataque cardíaco. Conclusão? Ajuda, mas pouco.

Segundo os pesquisadores, esses dados mostram que, muitas vezes, o uso diário de aspirina não compensa. Além de não ser efetivo em todos os casos (ela funciona melhor como prevenção para pessoas que já tiveram problemas cardíacos no passado do que para evitar que alguém que nunca teve incidentes não venha a ter), o risco de sangramentos ainda se mostra relativamente alto. Isso porque evitar a função das plaquetas faz com que elas não atuem em funções triviais do corpo: se por algum motivo um vaso sanguíneo seu estourar, a não ação das dessas células acaba gerando uma hemorragia interna perigosa.

No fim, a recomendação mais certa que existe é, antes de abusar da aspirina, consultar sempre um médico. Ele vai saber o que fazer.

Por Ingrid Luisa / Super.Abril