Projeto de escola municipal da zona rural de Vila Rica recebe prêmio nacional

Os alunos driblaram a falta de câmeras e tripés e, apoiados pelo professor, resolveram produzir um documentário com os próprios celulares.

Por Eldorado FM 19/11/2018 - 00:11 hs
Foto: Reprodução

Do norte ao sul do país, de leste ao oeste, os 11 projetos selecionados pelo Desafio Criativos da Escola 2018 provam que há criatividade e protagonismo de criança e jovens em todas as regiões do Brasil.

Há iniciativas de Campo Bom (RS) a Palmas (TO), de Brasilândia (MS) a Senador Pompeu (CE), de São Paulo (SP) a Canindé de São Francisco (SE), do Rio de Janeiro (RJ) a Vila Rica (MT), de Pindoretama (CE) a Sumaré (SP) passando por São Miguel das Matas (BA). Estas são as 11 cidades de onde vieram as iniciativas selecionadas entre as 1654 ações inscritas na edição deste ano.

Além de receberem prêmios em dinheiro, as equipes enviarão três estudantes e um educador ou educadora de cada uma das 11 iniciativas para uma vivência em Fortaleza (CE), onde poderão trocar experiências e fortalecer seus projetos. A celebração pública do Desafio 2018 será realizada no dia 4 de dezembro na capital cearense e terá transmissão ao vivo pelo canal de YouTube do Criativos da Escola. Guarde a data da cerimônia confirmando presença em nosso evento de Facebook e aproveite a transmissão para conhecer os estudantes premiados.

De nove estados e das cinco regiões do país, os projetos abordam temas diversos que trazem respostas a problemas sentidos pelos jovens nas suas realidades. As ações transformadoras valorizam a diversidade e a identidade dos estudantes na construção de uma escola mais conectada à comunidade.

É o que fica evidente no projeto realizado por jovens em contexto de privação e liberdade, assim como a ação de estudantes de uma comunidade agrícola em busca de alternativas para se ter água. Ou quando jovens se reuniram para contribuir com a economia de seu município ou para combater práticas racistas dentro da escola.

Projetos diversos que atuam no cuidado com o meio ambiente, na construção de igualdade entre homens e mulheres, no combate ao racismo, ao bullying e ao suicídio, por exemplo, estão representadas em ações por meio de arte, ciência, economia, saúde, entre outros.

Entre os critérios de análise e seleção dos projetos pelo júri estão: o potencial de transformação social das ações realizadas e o quanto a iniciativa contribuiu para o desenvolvimento da empatia, colaboração, criatividade e protagonismo dos estudantes.

Conheça o projeto: ESCOLA E COMUNIDADE: VIDA E FUTURO

A realidade da educação do campo no Brasil não é nada favorável. De acordo com levantamento da Universidade Federal de São Carlos, de 2002 até o primeiro semestre de 2017 foram fechadas cerca de 30 mil escolas rurais. E as que ainda resistem enfrentam o desafio diário para melhorar suas estruturas e impedir a evasão de seus alunos.

É exatamente este o contexto vivenciado na Agrovila Santo Antônio do Beleza em Vila Rica-MT. Surgida há 11 anos, a comunidade tem aproximadamente 200 famílias que vivem diretamente da agricultura familiar. Por estar distante cerca de 45 quilômetros do centro urbano, os próprios moradores decidiram se aventurar na construção de uma escola – que é multisseriada – e lutam para a sua manutenção que, ano a ano, sofre ameaças.

Dialogando com esta realidade, a coordenadora da escola provocou os estudantes: o que vocês podem fazer para valorizar esta conquista das famílias de vocês?

Após discutir em sala de aula, os jovens chegaram à conclusão de que a melhor alternativa seria contar a história não só da escola, mas também da comunidade e de suas dinâmicas no dia a dia. Decidiram, então, utilizar o meio audiovisual como ferramenta na empreitada. Driblaram a falta de câmeras e tripés e, apoiados pelo professor Felipe Tamuxi, resolveram produzir um documentário com os próprios celulares.

Após pesquisar sobre técnica de enquadramento de vídeo, entrevistaram os pioneiros do reassentamento. No papo, descobriram a origem da agrovila, quando os primeiros tratores limparam a área que hoje abriga a escola, construída pelos próprios moradores com tábuas de madeira. Para a realização das aulas, a igreja cedeu um galpão de alvenaria, mas que também apresenta uma estrutura precária.

Durante a produção, os estudantes quiseram abordar suas rotinas e as dificuldades cotidianas que enfrentam para comparecer às aulas. A maioria dos alunos trabalha na roça e alguns acordam por volta das 5 horas da manhã para tirar leite da vaca ou cuidar da horta. Depois disso, pegam o ônibus escolar que, muitas vezes, acaba atolando nas estradas de terra.

O documentário mostra também a degradação da mata nativa, causada pelo desmatamento. Grande parte da floresta que aparecia oito anos atrás no satélite, hoje já não existe mais. Os alunos foram até as áreas e filmaram árvores seculares cortadas dentro do seu território.

Com o material captado, passaram à edição. Instalaram um aplicativo no celular e, sob a orientação do professor, editaram o documentário de curta-metragem, denominado “Escola e Comunidade: Vida e Futuro”.

No lançamento do curta-metragem, os estudantes convidaram toda a comunidade. Muitos se emocionaram ao ver a luta para manter a escola e se verem retratados no filme. Mas as exibições não param por aí. Em novembro, o documentário será passado em evento que reúne projetos desenvolvidos por todas as escolas do campo da região.

Com o resultado do trabalho e o reconhecimento que receberam, muitos dos alunos que não viam motivação e pensavam em desistir de ir à escola passaram a se envolver cada vez mais. Eles relataram que o processo de luta no qual a escola foi forjada se transformou no grande motor para continuar.

Além disso, receberam uma boa notícia: o esforço rendeu frutos. Depois desses 11 anos, finalmente o estado acatou a solicitação e iniciou a construção de uma escola de alvenaria para os estudantes.

FONTE: Eldorado.fm com assessoria