O vexame de um Palmeiras prepotente que escolhe campeonato para ganhar

Cuca escalou seu tradicional 4-3-3 com dois cães de guarda, Guerra isolado no meio e o trio de ataque a quilômetros de distância

27/07/2017 - 09:30 hs
Foto: Cesar Greco/Ag Palmeiras/Reprodução

O Palmeiras não quis jogar a Copa do Brasil de 2017. Jogou por obrigação e saiu de campo satisfeito com a eliminação desta noite diante do Cruzeiro, sem nenhum pudor, sem esconder que, no fundo, não queria nem estar ali. Ficou de bom tamanho para os discursos da boca para fora: dois empates, perdemos no gol fora de casa, infelizmente fomos mal no primeiro tempo do jogo de ida, aquela coisa toda.

À parte a boa organização defensiva do Cruzeiro e a zona tática e técnica do time de Cuca, sobre a qual falaremos no próximo texto, a pura e cristalina verdade é que o Palmeiras não queria passar de fase. Quase passou, é verdade, e se passasse beleza, seguiria enrolando no próximo confronto para cair diante do Grêmio, provável classificado. Ou não, mata-mata é aquela coisa, vai que...

No ano passado, aliás, fomos eliminados pelo Grêmio, também nas quartas, e Cuca já vinha com o papo de que a Copa do Brasil atrapalhava, que tirava o foco dos treinos e da briga pela liderança do Brasileiro, que não sei o que, e a expulsão do Allione no jogo contra o Grêmio caiu a calhar como desculpa para uma eliminação que, se não foi desejada, foi vista com alívio. Mesmo assim, o time passou os últimos 20 minutos de jogo no campo gremista, com Jailson indo cabecear no último lance.

Hoje, a postura do time contra do Cruzeiro foi lamentável. E é essa a diferença para a ruindade pura e simples dos demais jogos deste tenebroso 2017: perdendo para o Vitória, esse time jogando mal chuveirou dezenas de bolas para a área durante o primeiro tempo até arrancar o empate e depois a virada a fórceps. Nesta noite, depois de levar o empate, tínhamos 10 minutos para buscar o segundo gol, mas fomos incapazes de tentar um mísero cruzamento ou de cavar uma falta pra jogar a bola na área.

Cuca escalou seu tradicional 4-3-3 com dois cães de guarda, Guerra isolado no meio e o trio de ataque a quilômetros de distância. Como em vários jogos do ano, o time não criou nada, mas você não via no olhar dos jogadores a irritação pela má partida e pela falta de resultado.

Então no intervalo Cuca trocou Guerra por Keno e adotou o famoso 6-0-4 beaseado no chutão & chuveirinho, Cucabol Essentials; depois pôs Raphael Veiga numa fogueira padrão Festa de São João de Itu, mas até que o menino se saiu bem.

E então achamos um gol numa bola desviada após um chute despretensioso de Keno. Depois, nos defendemos do jeito que deu. Aos 38, Egídio desperdiçou uma chance clara chutando por cima em vez de tocar para Veiga, que passava por trás do zagueiro, e no lance seguinte o Cruzeiro empatou em mais uma cagada coletiva de uma defesa que não consegue se achar.

 

Eram 39 minutos do segundo tempo. Com os acréscimos, seriam nove ou dez minutos, tempo suficiente para um time que, quando quis, mesmo jogando mal, deu seu jeito de tirar gols heroicos da cartola, nem que fossem aos 54 minutos do segundo tempo contra o Peñarol.

Mas lá era a Libertadores. A obsessão. A única chance de levantar uma taça que nos resta do ano. O sonho dourado da internacionalização da marca, a chance de enfrentar o Real Madrid. 

Já a Copa do Brasil que se lasque, na visão desse Palmeiras arrogante e que acha que pode escolher qual campeonato merece a sua dedicação e seu esforço. A Copa do Brasil só vale uma vaga na Libertadores. Na Copa do Brasil não dá pra escalar os reforços. A Copa do Brasil aumenta o calendário. A Copa do Brasil atrapalha. 

O Palmeiras esteve em campo por 360 minutos na Copa do Brasil e só se esforçou em praticar um futebol minimamente decente nos 20 minutos do segundo tempo do jogo de ida contra o Cruzeiro, quando apanhava por 3 a 0 em casa e correu para reduzir o vexame. Contra o Inter, foram 180 minutos de apatia e dois gols caídos do céu, na classificação mais injusta de nossa história. Contra o Cruzeiro, 160 minutos de preguiça, intercalados por 20 minutos de sufoco, e essa postura passiva lamentável do final. 

O Palmeiras dos 10 minutos finais do jogo desta quarta-feira, 26 de julho de 2017, foi de uma vergonha inominável, uma das maiores em 103 anos de história. Foi o time que aceitou passivamente uma eliminação porque, no fundo, sua comissão técnica, com o respaldo da diretoria, achou que o time não precisava desse título.

O Palmeiras prepotente que escolhe torneios para ganhar é o Palmeiras que gasta milhões em reforços para deixar dois jovens meias talentosos no banco, que entrega um caminhão de dinheiro em troca do maior artilheiro da América do Sul em 2016 para depois tratá-lo como um Finazzi piorado. É o Palmeiras pedante que se orgulha de vender a alma para ter o maior patrocínio do país, mas que deixa um moleque de 19 anos ir embora para o Barcelona B depois de aproveitá-lo por miseráveis 16 minutos em um ano.

É o Palmeiras novo-rico que contrata 200 jogadores e tem seu melhor lateral-esquerdo jogando com a camisa do Botafogo; que cobra o ingresso mais caro do país e cuja empáfia reflete no torcedor que aplaude renda, perde lance do jogo para conferir o Cartola na arquibancada e tira sarro do rival por encher estádio com ingresso barato, mas que vai ter que aguentar o outro rival ser campeão brasileiro com trocentas rodadas de antecedência.

Haja obsessão para salvar o 2017 do Palmeiras, se é que há salvação possível.

Cesar Greco/Ag Palmeiras/Reprodução

Cesar Greco/Ag Palmeiras/Reprodução
Keno quase classificou o Palmeiras, mas seu gol não foi o suficiente

Por  Fernando Cesarotti, do Corneta & Amendoim

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