Água, essa riqueza que é nossa, gera riqueza para que e para quem?

Por Marco Antonio Gallo 22/03/2017 - 20:17 hs

Hoje, dia internacional da água, somos convidados a refletir a questão do uso da água em nossa sociedade. Para que isso seja fecundo cabe a nós compreender a ideia de uso como relação do homem, o meio ambiente e demais organismos vivos do cosmos, tudo isso sob a ótica de uma ética ecológica que seja capaz de suspender preconceitos econômicos e ideológicos e lançar luzes para o desejo de uma vida sustentável e em diálogo com a história. 

O mundo certamente já foi mais quente ou mais frio em outros tempos, estudos científicos nos indicam que existe uma biodinâmica de regulação dos sistemas ecológicos que se encontram ameaçados, pelo uso indevido, por práticas depredatórias dos biomas, pela intervenção desmedida das construções civis entre outros fatores.

Chegamos então ao ponto “x” da questão que iremos refletir com 3 enfoques: a) a compreensão que temos de ética ecológica, isto é, de que forma entendemos a nossa participação na vida como um todo em diálogo com o sistema que produz e gera o ciclo vital, salvaguardando que esse diálogo se trata da aplicação de um conjunto de valores que permeiam a relação da vida. b) a injustiça social que convive sordidamente com a vida no planeta produzindo a fome e esmagando a dignidade da pessoa humana. c) a problemática do uso da água pelo agronegócio como exemplar da degradação ambiental em função do capital.

Para refletir a ética e a ecologia podemos em primeira mão recorrer à um conceito básico de ecologia que pressupõe a relação como discurso da vida numa “casa comum” assim a visão ecológica se torna sistêmica e interdisciplinar do universo como um todo, exigindo da vida inteligível – que não se limita somente a humanidade, mas concede a ela primazia desta – um posicionamento ético que leva ao respeito à vida cósmica como um todo, dando sustentabilidade para a manutenção do ciclo vital garantindo a sobrevivência das espécies. Pensar a relação ecológica de maneira ética é promover a consciência histórica da interdependência dos seres de maneira afetiva e efetiva garantindo de forma promissória a continuidade da existência ordenada da vida no planeta. 

O segundo eixo dessa reflexão põe em cheque as relações políticas e econômicas que desconstrói a possibilidade de uma relação ecológica no planeta, uma vez que uma mesma espécie se corrói dando margem para a afirmação de que o restante da natureza trata-se de externo e estranho a sobrevivência. Essa realidade se torna perceptível quando se verifica que o homem moderno é compelido a viver irracionalmente, nos tóxicos do progresso, construindo uma nova proposta de vida – nova em relação a originária – a do poder e da riqueza, mesmo que essa seja em detrimento a relação de paz e comunhão vital, de modo que o consumo está supervalorizado pelas ações predatórias-indiscriminadas a custo do capital, que impõe as relações econômicas como necessidade para a sobrevivência. Tal imposição capitalista se desmonta frente a sua própria estrutura fundamental que quanto mais produz, mais gera escravos sociais e pobreza, e a maior evidencia disso é que o desenvolvimento econômico nesse sistema encontra-se nitidamente associado ao crescimento das mazelas sociais.

Para contemplarmos o terceiro e último eixo e percebe-lo em conexão com os dois anteriores, utilizaremos o agronegócio como exemplar do descaso ecológico: O Brasil é considerado uma grande potência e referência mundial no que diz respeito às atividades agrícolas, há quem diga que a salvação econômica de nosso país é marcada por essa realidade, e é por isso que no início dessa reflexão pontua-se a discussão como uma questão de ética ecológica, questionando a significação real desse fato frente ao sistema político que faz precária a saúde e a educação por exemplo e permite em meio a toneladas de produção a convivência pacifica de uma sociedade com a fome. Segundo dados da Agência Nacional de Águas (ANA) e do Fundo das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO, na sigla em inglês), a cada 100 litros de água tratada utilizadas no Brasil, 72 são encaminhadas para o agronegócio. Isso quer dizer que mais de 70% de um bem comum – a água – tem sido usado para produzir uma determinada riqueza que se concentra na mão de uma porcentagem mínima da população, além do uso de um bem comum, conta com trabalhadores que recebem muito menos do que produz, em situações de insalubridade, além da destruição de biomas e espécies nativas. Diante disso, cabe a nós realizarmos duas proposições: a primeira é; qual a racionalidade existência num sistema de produção que destrói, usurpa o bem comum para promover uma riqueza privada? E por fim, essa riqueza é para que? E para quem?

Assim nesse dia da água pensemos que não é o banho do pobre trabalhador e cansado que destrói o vínculo ético da relação homem-natureza, não é a luz que ilumina o estudo da jovem negra que busca um futuro novo e melhor madrugadas a fora que causa as assassinas barragens das hidroelétricas, não é a energia gasta pela TV da dona de casa que distrai a fome os desejos de seus filhos que derruba as matas que fecundam nossos rios, muito distante disso é a ganancia e o falho projeto do capital que atenta diária e noturnamente contra a vida do planeta.

Por Marcos Antonio Gallo

agua e vida