O neoliberalismo é o grande empreendimento protestante do século

Por Marco Antonio Gallo 14/03/2017 - 18:17 hs
Há duas coisas que precisamos deixar bem clara nesse texto, a primeira é o objetivo com o qual ele é escrito e a segunda é quais as consequências a sociedade brasileira sofrerá caso o plano neoprotestante, especificamente neopentecostal, seja efetivado em nosso século.
O objetivo dessa reflexão está intimamente ligado a necessidade de clarear os rumos pelos quais o Brasil está caminhando no que diz respeito a suas políticas sociais e os retrocessos iniciados a partir da revoltosa ação da burguesia expressa inconstitucionalmente no impeachment da Presidente Dilma e continuada dos desastrosos projetos do interino e ilegítimo governo de Temer. 
Quando, defendendo a democracia, a massa intelectual e os trabalhadores não alienados gritavam: “Não vai ter golpe”, a expressão “golpe”, tratava-se muito mais do que apenas a possibilidade de uma derrubada do governo eleito democraticamente, havia sem sombra de dúvida a consciência de que o plano que se apresentava contra Dilma, na verdade estava contra a instauração de um sistema político que vinha passo a passo, redistribuindo a renda, gerando possibilidade de ascensão social das classes minoritárias e favorecendo por meio da democratização da educação para que milhares de brasileiros deixassem de ser engrenagem de um sistema injusto e explorador para assumirem seus espaços como cidadãos protagonistas da história desse País. Caso o “temeroso” plano se efetive, todas essas conquistas escoarão marcando a vida do Brasil com um grande retorno ao coronelismo.
Tendo em vista que o atual momento trata-se de uma intrincada luta da classe opressora – me abstenho de chama-la de dominante – contra as classes trabalhadoras e libertárias desse país, devemos conceituar o neoliberalismo, para entende-lo como empreendimento do protestantismo brasileiro: trata-se de um conjunto de ideias políticas e econômicas do capitalismo, que visa a não intervenção e participação do estado na economia nacional, de modo que todos independentemente das condições de acesso aos bens de consumo básicos à dignidade possuem o mesmo nível de liberdade para se estabelecer social e economicamente diante da conjuntura. Tendo esse modelo como base, a pirâmide social se articula de modo que haja congelamento e a submissão do proletariado frente a um pequeno grupo ditador das regras e detentor de todo o poder que dá acessibilidade aos bens necessários para uma vida digna e justa.
Qual seria então o interesse do “neoprotestantismo” em ver efetivado esse projeto como trunfo de sua ascensão e dominação alienadora contra o povo Brasileiro? Em primeiro lugar podemos recorrer a Max Weber que minunciosamente a tempos atrás percebeu a relação quase que condicional a existência dessa tendência religiosa e o capitalismo, para ele a salvação passou a partir do protestantismo a ser para alguns, como que por providencia divina, estimulando assim o ego dos que se consideram “crentes”, e o trabalho – devemos considerar que o conceito de trabalho em weber, está ligado a exploração do submisso – como algo enobrecedor e causador de uma rotina que afasta a pessoa humana do pecado, com o crescimento dessa tendência ela passou a ser oferecedora de prosperidade, trocando o “sagrado dizimo” e as indutoras vendas de símbolos sagrados por falso sucesso e prosperidade. Esse ideal passou a ser a única possibilidade de alivio aos que carregavam o peso de sustentar a burguesia dessa nação, até que por um processo de luta e conscientização política, chegou à presidência da república um operário que representava todas as classes e gentes desesperançadas. 
A partir de então, o Brasil começa a sua grande e árdua jornada pela redistribuição de renda e igualização das classes cidadãs, de modo que já não era mais preciso sonhar eloquentemente com a lógica “crer” para “ter”, desarticulando assim as artimanhas do maior plano de alienação do milênio, encaminhando o fim de uma estrutura religiosa superficial e vendida à corrupção e ao “encabrestamento” do povo oprimido.
Evidentemente a forma com que se efetivava as políticas sociais no Brasil a partir do governo Lula, acomodou a participação popular na continuidade da luta pela plena democracia política e econômica no país enquanto a direita estrategicamente maculou as conquistas populares formulando entre aqueles que ascenderam na sociedade um esquecimento e sentimento de ingratidão pelo processo que os levaram até tal posição, nesse processo devemos pontuar sobre tudo: a geração de empregos, a chegada da luz para todos, a universidade acessível a todos, a possibilidade da conclusão dos estudos nas mais variadas faixas etárias, a inclusão da mulher no meio político e empresarial, o combate do racismo por meio de novas oportunidades, a criminalização da homofobia, o desvelamento dos crimes da ditadura, o crédito para o pequenos produtores e empreendedores, os auxílios aos lesados pela história, entre outras.
Diante dessa situação o retorno a desigualdade e ao sofrimento do povo será determinante para o enriquecimento de seitas protestantes e estas se tornaram objeto sórdido nas mãos da elite que quer voltar a ser dominadora. Tal fato se verifica quando abertamente vemos pastores e líderes religiosos alavancando os grandes nomes da política da desigualdade, tendo o cristianismo como subterfugio desse projeto, ignorando a situação social fundante da fé e ensinamento de Jesus Cristo: a opção exclusiva pelos excluídos e marginalizados, de modo que eles estejam novamente com as rédeas da alienação em posse e fortalecendo suas estruturas servidoras de um poder explorador.